Alain Badiou e as 4 Condições da Filosofia | O FIM DA FILOSOFIA?

작년

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Alain Badiou, filósofo marroquino naturalizado francês, escreveu o seu Manifesto Pela Filosofia, no qual responde à mentalidade niilista do século XX que crê ter a filosofia chegado ao seu fim.

Assista ao vídeo abaixo ou leia a transcrição logo a seguir:


Transcrição do vídeo:

A filosofia não produz verdades nem mesmo é a todo instante possível. Mas não: a filosofia não acabou.

~~ VINHETA DE INTRODUÇÃO ~~

Olá seres pensantes que levam o conhecimento como entretenimento, como vão vocês?

Hoje quero falar um pouquinho do pensamento de um filósofo pouco considerado no Brasil, cujas ideias, acredito, podem ganhar maior relevância por aqui.

Trata-se de Alain Badiou, filósofo marroquino naturalizado francês que também era dramaturgo e novelista.

Mas antes, bora ajudar o canal a crescer e espalhar mais filosofia pela internet?

Curte este vídeo agora. Sua curtida é fundamental e fará toda diferença na divulgação da filosofia que trago aqui gratuitamente pra vocês.

E se gosta do que faço, você pode ser como o Fernando, o Gabriel, o Lourenço e o Marcos e me apadrinhar pelo padrim.com.br/alysson, valeu!?

Então bora nessa!

Badiou, em seu livro Manifesto Pela Filosofia, começa elencando uma mentalidade difundida entre filósofos franceses de sua época que colocavam a filosofia como algo em ruínas.

Ele destaca que, enquanto militares, políticos, sociólogos, historiadores e por aí vai se isentam, apenas os filósofos entendem-se responsáveis pelos crimes históricos e políticos do século.

Isso teria criado, entre a comunidade filosófica, um clima de insatisfação, partindo de uma ideia corriqueira de que tudo dependeria da filosofia. Afinal, só faz sentido se sentir culpado por fracassos históricos enquanto filósofo se tais fracassos dependerem da filosofia.

Isso tem a ver com o entendimento hegeliano, como afirma Badiou, de que haveria um espírito do tempo, uma determinação essencial em que a filosofia é o princípio de captura e de concentração.

Mas pra Badiou muitos acontecimentos que fazem brotar um certo tipo de niilismo não dependem da filosofia. O filósofo não é responsável pelos fatos hediondos do século XX.

Tomem o acontecimento nazista, que vitimou muitas pessoas, especialmente judeus, e que tornou a Europa num grande palco de guerra. Pra Badiou, embora seja pensável, o nazismo não é sequer um objeto possível da filosofia.

Ele entende que defender que tal acontecimento histórico fez ruir a filosofia seria como dar uma vitória a Hitler, colocando o impensável dentro do pensamento, e cessando a filosofia de seu trabalho arquiteturado.

Antes, nosso filósofo marroquino entende que há certas condições de possibilidade da filosofia que, caso não sejam consideradas, fariam "morrer uma segunda vez os judeus", por abandonarmos o potencial daquilo para o qual eles tanto contribuíram, que é o pensamento racional, estruturado e universalizante.

AS 4 CONDIÇÕES DA FILOSOFIA

Badiou entende que a filosofia teve um começo, não existe e nem pode existir em todas as configurações históricas pois exige condições particulares.

Não significa dizer que a filosofia seja possível apenas em determinados sistemas políticos, como se fosse algo próprio de um democracia grega ou uma teocracia cristã.

Para Badiou,

As condições da filosofia são transversais, são procedimentos uniformes, reconhecíveis a longa distância, e cuja relação ao pensamento é relativamente invariante. O nome dessa invariância é claro: trata-se do termo "verdade".

Em outras palavras, a filosofia é possível na medida em que é possível a busca pela verdade que transcende as diferentes culturas e as diferentes épocas na história da civilização humana.

Assim, analisando a ocorrência histórica da filosofia, ele entende que o mérito da Grécia Antiga, que viu nascer o filosofar, está na consideração de 4 condições de possibilidade da filosofia; são elas o matema, o poema, a invenção política e o amor.

Nas palavras de Badiou,

A singularidade da Grécia é muito mais a de ter interrompido a narrativa das origens pela proposição laicizada e abstrata, de ter ferido o prestígio do poema com o do matema, de ter concebido a Cidade como um tema aberto, disputado, vacante, e de ter trazido à cena pública as tempestades da paixão.

Essa soma de fatores que possibilitaram o surgimento da filosofia, Badiou chama de compossibilidade.
É papel da filosofia "compossibilitar" o acesso à verdade em suas diferentes condições.

Pra que haja filosofia, todas essas quatro condições devem estar presentes em algum grau. Badiou entende que a falta de alguma dessas condições causará a dissipação da filosofia em qualquer sociedade.

Lembra quando, no começo do vídeo, eu disse que a filosofia não produz verdades?

Isso é porque, pra Badiou, as condições da filosofia são os procedimentos das verdades. As condições matema, poema, invenção política e amor atestam que só haja verdade científica, artística, política ou amorosa.

Assim,

A filosofia não estabelece nenhuma verdade, mas dispõe um lugar das verdades. (…) A filosofia pronuncia, não a verdade, mas a conjuntura, quer dizer, a conjunção pensável das verdades.

É perceptível, porém, que em diferentes situações históricas as condições da filosofia tinham diferentes papéis, de modo que umas fossem mais relevantes que outras para as tendências de cada época.

Badiou vê em Platão uma tentativa de tornar a política compossível com a matemática.

Em Platão é bem conhecida a inscrição que ficava acima da entrada de sua Academia: "aqui só entra quem for geômetra", de modo que apenas pudesse fazer filosofia em seu território aqueles que fossem letrados nos fundamentos da matemática.

[E quem assistiu ao meu vídeo, sobre se filosofia atrapalha matemática, tá sabendo bem disso]

Esse respeito ao matema por parte de Platão, porém, era proporcional ao seu interesse pela política: a dialética em Platão era a matemática tornada invenção política. Seus diálogos buscavam resoluções lógicas na qual o operador comum não era o número, mas a ideia.

A poesia é posta em suspeita em Platão, pois haveria aí uma cumplicidade paradoxal entre o poema e a sofística [e sabemos como os sofistas foram desdenhados, coisa que o Devanil do canal Alimente o Cérebro pontuou bem em seu vídeo]; mas o amor, para o qual dedicou "um banquete" inteiro, ganha espaço como aquele momento repentino no qual o encontro humano produz verdades.

A pergunta que Badiou faz, então, é se haveria um período moderno da filosofia. Já que na antiguidade as condições da filosofia foram compossíveis, o que pensar da modernidade? Houve filosofia? Como?

Para o marroquino,

[Um] "período" da filosofia [é] uma sequência de sua existência em que persiste um tipo de configuração especificada por uma condição dominante.

Isso significa dizer que há, em cada período da filosofia, uma condição que permeia as outras, algo que Badiou chamou de "sutura", que seria uma situação na qual a filosofia delega o todo do seu pensamento a uma de suas condições.

Em platão essa condição era do matema, simbolizada na Ideia platônica. A ideia é toda verdade e está significada no mundo das formas, naquilo que há de comum entre todos os entes individuais. Não à toa há o pré-requisito da geometria em Platão.

Assim, a modernidade ganha traços particulares onde as condições da filosofia dialogam entre si ao longo dos séculos, de modo que diferentes épocas desse período moderno sejam representadas diferentemente, tenham diferentes suturas.

Badiou elenca variações da modernidade pois, nesses "tempos modernos", é difícil definir uma invariância na configuração das condições da filosofia.

Na idade clássica da modernidade, seria a matemática a condição dominante, representada, entre outros, por Descartes e Leibniz.

Com a chegada de Rousseau e Hegel, a condição histórico-política ganha destaque, e temos aí o período da Revolução Francesa.

Com Nietzsche e Heidegger, a arte tem seu valor resgatado, fugindo de uma milenar tradição pela racionalidade político-matemática e dando espaço ao poema.

Também temos o papel de Freud, que Badiou entende ser a "única verdadeira tentativa moderna de fazer do amor um conceito". Sobre o amor, Lévinas também parece propor uma sutura.

Bom, o fato é que esses diferentes estágios recentes da nossa história refletem uma constante quebra da ordem das coisas.

No século dezenove, entre Hegel e Nietzsche, temos suturas variadas, como a sutura positivista, que tomava a ciência como a grande e única propositora de verdades. Aliás, Badiou acredita que essa sutura ainda é dominante.

Outras tentativas de suturas também ocorreram na modernidade.

O marxismo, por exemplo, tentou suturar a filosofia à sua condição política, buscando substituir a interpretação do mundo por sua transformação revolucionária, forçando a política como o todo do pensamento gerador de sentido.

Com esse interesse, e percebendo a relevância da condição científica, Marx e seus sucessores tentaram se associar à sutura positiva dominante e elevar sua política revolucionária à categoria de ciência.

E isso pra Badiou foi um erro, pois tudo que fizeram foi opôr seu socialismo supostamente científico ao socialismo utópico dos outros, cruzando duas suturas, da política e da ciência representadas no seu materialismo histórico, como se bastassem à filosofia.

O entendimento do nosso filósofo é que,

A filosofia está no círculo fechado de sua suspensão, (…) cativa de uma rede de suturas a suas condições, (…) que a proíbem de configurar sua compossibilidade geral.

A pergunta que fica, então, é sobre como podemos des-suturar a filosofia.

Afinal, se o que impede a filosofia em sua integralidade são as diferentes suturas que destacam uma ou outra de suas condições como principal, como evitar que isso ocorra?

A resposta de Badiou é, para muitos filósofos de sua época críticos da sistematização do pensamento, intrigante:

Há pelo menos duas regras universais, na falta das quais não se tem mais nenhuma razão de falar de filosofia. A primeira é que ela deve (…) tornar possível o pensamento simultâneo, conceitualmente unificado do matema, do poema, da invenção política e do Dois do amor. A segunda é que o paradigma de percurso, ou de rigor, (…) deve ser exibido (…) A filosofia só é des-suturada se ela é, por sua própria conta, sistemática. Se a contrario a filosofia declara a impossibilidade do sistema, é que ela está suturada, é que ela entrega o pensamento a uma só de suas condições.

O pensamento sistemático, que comporta as diferentes condições de verdade, é o que possibilita a filosofia em sua compossibilidade, na sua forma integral e completa.

Por isso, Badiou propõe que não apenas a filosofia não acabou, e que o niilismo não deve ter espaço pois seria fazer vencer os nazistas.

Antes, a filosofia está viva, e ficará ainda mais viva com nossa busca pela des-suturação, dando igual relevância a cada uma de suas 4 condições.


A todos que me assistiram até aqui, meu mais sincero obrigado!

Se assistiu até aqui, então me diz aí nos comentários o que você achou dessas ideias de Alain Badiou?… Assim como o filósofo, você também acredita que privilegiar excessivamente apenas uma das condições da filosofia é ser anti-filosófico? Aliás… Como você acha que essa reflexão dialoga com os dias de hoje?

Enfim meu povo… Se você gostou do vídeo, não esqueça de deixar sua curtida, seu comentário e de compartilhar com seus amigos e contatos.

Meu nome é Alysson Augusto e a gente se vê no próximo episódio.


Que seja possível, logo necessário, des-suturar a filosofia e proclamar seu renascimento; que após a longa suspensão que acarretaram os privilégios sucessivos e ruinosos da condição científica ([representada pelo] positivismo), da condição política ([pelo] marxismo) e da condição poética (de Nietzsche até hoje), retorna o imperativo de configurar as quatro condições a partir de uma doutrina inteiramente refundida da verdade; que em ruptura para com os anúncios repetidos do "fim da filosofia", do "fim da metafísica", da "crise da razão", da "desconstrução do sujeito", a tarefa seja a de retomar o fio da razão moderna, de dar um passo a mais na filiação da "meditação cartesiana": tudo isto não passaria de um voluntarismo arbitrário se aquilo que lhe funda o sentido não se achasse tendo o estatuto de eventos cruciais sobrevindos, embora segundo nomeações ainda suspensas, ou precárias, ao registro de cada uma das quatro condições. São estes eventos do matema, do poema, do pensamento do amor e da política inventada que nos prescrevem o retorno da filosofia, na aptidão de dispor um lugar intelectual de abrigo e de acolhimento para aquilo que, desses eventos, é presentemente nomeável. - Alain Badiou, Manifesto Pela Filosofia


REFERÊNCIAS

Manifesto Pela Filosofia, por Alain Badiou:
(espanhol): https://amzn.to/2FdzGet
(inglês): https://amzn.to/2FgxGSA
(português): https://pt.scribd.com/doc/280574981/Badiou-Manifesto-Pela-Filosofia

Alain Badiou: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alain_Badiou

O Múltiplo Sem Um: uma apresentação do sistema de Alain Badiou, por Norman Madarasz - https://www.fnac.com.br/o-multiplo-sem-um--uma-apresentacao-do-sistema-de-alain-badiou/p

Filosofia, Verdade e Política em Alain Badiou: https://www2.ufrb.edu.br/griot/images/vol8-n2/1.pdf

Introdução a Alain Badiou: https://estudosbadiouianos.wordpress.com/2012/12/14/6/

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