Novos Hábitos Nos Dão Nova Identidade | Educar para Ser

작년

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Ultimamente tenho lido mais textos em inglês do que em português, e me pergunto sobre por que isso tem acontecido. Analisando meu histórico de pesquisas no navegador, percebi que tomei como padrão certas referências intelectuais que são em língua estrangeira.

Por exemplo, se preciso saber algo relativo à filosofia, jogo a questão no google acompanhada do termo "IEP" (Internet Encyclopedia of Philosophy) ou então "SEP" (Stanford Encyclopedia of Philosophy). Se preciso saber algo sobre o reino animal, utilizo termos como "Nature", "Science" ou "Plos One", priorizando o destaque de revistas e plataformas estrangeiras de alto impacto. Se não sei exatamente onde encontrar algo confiável pesquisando no google, uso o "Google Scholar" (Google Acadêmico) pra tentar me situar. Até mesmo na plataforma Academia.Edu tenho seguido mais autores em língua inglesa do que qualquer outra, e mesmo há autores que sequer são anglo-saxões — vejo que brasileiros têm focado em produzir em língua estrangeira. Aliás, o surgimento de dúvidas ao longo de minhas pesquisas, somada ao fato de que conheço esses "lugares comuns do conhecimento global", faz com que eu pesquise, inclusive, em inglês: "cultural and moral relativism - IEP" pesquisar. Até já me vi engajado em debates em inglês nas redes sociais, o que é particularmente interessante dado que que nunca fiz qualquer curso e nunca fui pró-ativo nisso (meu contato com inglês começou com vídeo games e hoje tô aprendendo pela pesquisa).

De certa forma, é como se eu estivesse lentamente debandando do debate acadêmico brasileiro sobre esses assuntos e querendo me inserir num debate mais amplo e atual sobre esses tópicos. Fuga de mentes brasileiras impulsionada pelo mundo digital? Talvez. Ainda não cheguei a escrever pensando em submeter textos apenas a revistas não-brasileiras. A única certeza é que Aristóteles tem razão quando fala sobre virtudes serem consolidadas pelo hábito: antes eu me bastava com Brasil Escola, depois superei o estigma e passei a confiar em Wikipedia; atualmente, tem me parecido menos custoso delegar a confiança a plataformas internacionalmente reconhecidas e vinculadas a instituições sólidas quando os assuntos são perenes. Esse processo lento foi me forçando a, atualmente, ler mais em inglês do que em português. Minha compreensão tem aumentado, novas palavras estão ganhando significado e, acredito, é questão de tempo até eu estar escrevendo em outra língua, quiçá oralizando com nativos sem receio de errar.

Educação é um processo bem lento e que filtra muito da nossa identidade. Aquele adolescente de 14 anos que só se interessava por inglês pra entender as histórias contadas nos RPGs do seu Playstation 1 veria o cara de 25 anos de hoje com certo desdém ("tenho que 'virar' esse Final Fantasy Tactics, essa coisa de ler livro não me importa"). Da mesma forma, o cara que sou hoje sente certa frustração ao pensar que aquele adolescente poderia estar na mesma situação se não fossem algumas portas serem abertas, bem como a decisão espontânea de resolver passar por elas. De certa forma, aqui vale a comparação de Stuart Mill: mais vale um Sócrates infeliz do que um tolo feliz, e se o tolo é da opinião contrária é porque não conheceu a outra parte.

Novos hábitos nos dão nova identidade, e quando não há arrependimento na comparação inter-temporal de quem somos e fomos, podemos acreditar que estamos inclinados ao melhor caminho disponível.

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Nos sentimos bem mais confortáveis quando escutamos e lemos, e principalmente escrevemos e falamos em nossa língua natal. Mas é inegável que a língua internacional hoje é o inglês, e ele nos abre uma porta infinita para novos conhecimentos.

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Bom texto.
Penso que essa fuga não seja gerada pelo mundo digital, mas sim pelo capital, pois em nosso país, infelizmente, existem poucos investimentos em áreas de humanas, o que leva o pessoal da área a publicar textos e artigos em inglês.
Estou estudando alemão e pouco tempo atrás por curiosidade, fui procurar artigos de filosofia nessa língua, descobri que existem muitas coisas novas publicadas, portanto, penso que esse é um problema especificamente do nosso país.