Por que somos viciados em CARNE?

10개월 전

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No vídeo de hoje, faço uma breve reflexão sobre como nosso paladar se acostuma e vira dependente de carne.

Assista ao vídeo:


Transcrição do vídeo:

Na maior parte da minha vida fui um cara apaixonado por carne, que detestava alimentos vegetais em sua maioria, e só se satisfazia se tivesse carne no prato. O gosto próprio da carne, um gosto forte e que fica ainda mais forte se ela for assada ou frita, por exemplo, sempre despertou meu paladar. Foi só quando parei de comer carne, em 2013, que eu comecei a gostar (bastante até) de vegetais. Hoje em dia eu como de todos os tipos de vegetais.

Muitas pessoas são como eu era: detestam vegetais, e não dispensam carne quando podem. Tá certo que grãos como arroz e feijão, que costumam acompanhar a carne no prato, são vegetais também, mas quando essas pessoas dizem detestar vegetais, são coisas como alface, cebola, batata-doce, beterraba, tomate e por aí vai. Algumas pessoas chegam a ser tão viciadas em carne que não passam um dia sem comer, e quando ficam sem comer, sentem-se frustradas e mesmo com raiva…

Mas fica aqui uma dúvida:

se esse vício em carne é tão forte em algumas pessoas, isso significa que as pessoas são carnívoras, como se seu organismo fosse moldado pra comer carne, ou significa apenas que essas pessoas se habituaram de tal forma a comer carne que virou uma espécie de dependência psicológica, tal como ocorre com muitos vícios?

Bem… Obviamente não somos carnívoros, como um leão. Mas também não somos herbívoros, como um elefante. Seres humanos são animais onívoros, o que significa que podemos comer tanto carne quanto vegetais, e nosso corpo consegue ser saudável com ambos os alimentos.

Só que, se não somos carnívoros, o que pode explicar o vício e sensação de dependência por carne em algumas pessoas?

Eu não sei sobre todos os detalhes científicos disponíveis e pertinentes ao assunto, mas eu acredito que esse vício psicológico pode ser explicado pela forma como o nosso paladar funciona na hora de a gente construir hábitos alimentares.

Pra quem não sabe, eu faço um curso de especialização na PUCRS sobre Neurociência e Comportamento, e nele já falei com alguns professores sobre isso. Esses professores de neurociência com quem falei me explicaram que nossa sensação de prazer com certos alimentos é devido a um mecanismo de adaptação comum no nosso paladar, que vem desde quando somos bebês.

Por exemplo… bebês passam 6 meses só tomando leite materno. E isso é até que um bom tempo apenas ingerindo o mesmo alimento, afinal qualquer pessoa em sã consciência que fique seis meses comendo a mesma coisa vai acabar enjoando, o que é perfeitamente normal.

Só que se você, uma pessoa da minha idade, por exemplo, for tomar leite materno hoje em dia, é altamente provável que ache um gosto horrível, é bem provável que a repulsa por esse alimento seja grande. Comparado ao que estamos acostumados a comer, o gosto do leite materno não é o que a gente chamaria de "bom"…

Mas pro bebê, aquile leite da mãe dele é simplesmente delicioso, e talvez o bebê pense que não há nada mais gostoso no mundo do que o leite da mãe dele.

Só que, com o tempo, vamos dando outros alimentos pro bebê, como papinha, frutas, vegetais, pão e por aí vai, alimentos que têm gosto mais forte, mais característico, que têm uma consistência diferente, mais rígida ou crocante, que não é mais meramente líquida.

O bebê se acostuma com esses alimentos mais característicos e, então, passa a recusar leite materno com o tempo, e a mãe começa a naturalmente deixar de produzir aquele alimento, que não tá mais sendo demandado pela criança.

O que a gente vê até aqui é que nosso paladar vai se acostumando com diferentes marcadores, como massa, textura, crocância e eu diria que há inclusive uma sinestesia entre o gosto e o cheiro do alimento, de tal modo que o cheiro já antecipe o gosto que a gente vá sentir. Então, pra comida ser boa, ela tem que ter um cheiro bom.

Se você cheirar batatas-fritas, por ex., é capaz de sentir vontade de comer batatas-fritas. Agora, se você cheirar leite materno, é capaz de sentir repulsa.

A questão é que, nas primeiras infâncias, muitos pais já dão carne pras crianças, e elas se acostumam com o gosto forte e próprio da carne. Isso faz com que, com o tempo, e se acostumando a comer carne quase todo dia, a criança comece a pedir ainda mais carne, afinal ela gostou, repetiu, se habituou e o paladar dessa criança ficou acostumado com aqueles marcadores próprios da carne.

Aliás, é interessante notar que algumas crianças sequer gostam de carne na primeira vez que experimentam, e só se sentem à vontade pra comer depois que os pais forçam essas crianças a comer e a se acostumar.

Eu trabalhei numa escola de educação infantil em que uma criança se recusava a comer carne, pois odiava, e só comia vegetais, só que comia bem mais, e repetia o prato até três vezes se pudesse, do que seus outros colegas.

Mas enfim…

É aí, nessa construção de hábito alimentar comendo carne, que o estrago começa a ser feito, afinal o paladar da criança começa a ficar mais exigente, tal como o paladar de um diabético: o gosto precisa ser forte pra ser palatável, e como o gosto da carne é bem mais forte que o de vegetais, a criança acaba se tornando birrenta, mimada na hora de selecionar alimentos, exigindo carne sempre, e então os pais acabam tendo dificuldade em fazer com que a criança coma verduras, legumes, frutas, etc, coisas que os pais sabem ser evidentemente saudáveis.

Aliás, existem pais que treinam seus filhos pra comer carne sempre que podem, e depois se fazem de desentendidos como se não fossem culpados por seu filho não querer comer vegetais.

E isso foi o que esses professores de neurociência me explicaram quanto ao funcionamento do nosso paladar. Vale perceber também que nosso paladar funciona de modo muito parecido com a forma como funciona nosso vício em drogas, como cigarro, álcool e mesmo pedras de crack.

Em geral a gente se habitua a consumir essas coisas que têm gosto mais forte, a gente passa a depender delas e demandar mais e mais por elas. E então, o estrago tá feito, com a diferença de que, nesses casos de vício em drogas, não são os pais que sofrem com a necessidade de corrigir o filho, mas a própria sociedade acaba sofrendo com esses outros tipos de vício.

De fato, vício em drogas e vício em carne são coisas bem diferentes. Minha comparação aqui não é quanto a esses vícios, mas quanto à forma com que nossos hábitos se consolidam, seja o hábito de comer carne, seja o hábito de tomar cerveja, dentre outros.

E sobre o vício em carne, eu me lembro claramente que um dia eu fui assim, antes de 2013, quando parei de comer.

E o jeito pra superar esse vício que me impedia de gostar de vegetais foi simplesmente me forçando ao abandono da carne, coisa que só consegui graças a ter me convencido de que era possível ter uma vida saudável sem comer carne.

Pra quem não sabe, eu já tô há 6 anos sem comer carne animal, e quando fizer 10 anos eu vou comprar esses bótons do tipo alcoólicos anônimos só pra colocar na roupa, só que ao invés de dizer que tô há uma década sem beber, vai constar que tô há uma década livre do vício em carne hahaha.

Enfim, Aristóteles tava certo quando dizia que somos aquilo que fazemos repetidas vezes. Se a gente quer educar nossas crianças pra que comam seus vegetais, a melhor forma de fazer isso é maneirando na hora de dar carne pra elas, ou então simplesmente parando de dar, porque elas realmente não precisam, tal como nunca precisaram quando só tomavam leite.

A dica que eu dou é que nós passemos a conhecer nossos corpos melhor, entendendo a biologia da coisa toda, entendendo por que temos dentes molares e por que nosso intestino é tão grande comparado ao dos carnívoros, além de ver as nossas demais semelhanças com os herbívoros.

E pra quem quiser ver um filme sobre isso, procura aí por "Game Changers", ou Dieta de Gladiadores, na Netflix, que explica tudo isso que eu tô dizendo e muito mais.

Pras pessoas interessadas em fazer a diferença aqui no meu canal, saibam que pra apoiar o meu trabalho é muito simples, basta acessar alyssonaugusto.com.br e conferir as maneiras de como financiar a divulgação de conhecimento filosófico e científico.

Ah!, dia 21 agora é meu aniversário, pra participar é só conferir o link na descrição deste vídeo. Forte abraço!

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