CRÍTICA | Era Uma Vez... Em Hollywood

지난달
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O nono filme de Quentin Tarantino. A cada contagem crescente que abre seus lançamentos, expectativa (oba! Mais um filme) e amargura (o último está chegando. Será? Não duvido. O cara é meio doidão) se combinam numa experiência que é, no mínimo, interessante. A habilidade narrativa de Tarantino não é apenas cool, mas muito honesta e envolvente. Assim, assimilar que o fim está chegando é um tanto triste, mas, ao mesmo tempo, torna a experiência mais intensa. Mas sabendo o quão perigoso é uma expectativa alta, controlei os ânimos para assistir Era Uma Vez... Em Hollywood – o que não foi tão difícil já que eu não amo Django Livre e acho Os Oito Adiados um tanto cansativo. Mas ao confrontar a minha experiência durante a sessão e o teor dessa crítica percebi que não controlei expectativa alguma.

Ao longo da duração de Era Uma Vez... Em Hollywood tive sentimentos conflitantes. Parte de mim mantinha algum grau de curiosidade nos personagens ou no desenrolar da história, mas havia também outra boa parte que estava simplesmente entediada. E é estranho, pelo menos para mim, ficar entediado logo nalgum filme do Tarantino. Embora haja momentos onde acredito que o filme se alongue mais que o necessário, noto agora que meu tédio veio de uma expectativa equivocada. Era Uma Vez... consegue ser, ao mesmo tempo, um dos filmes de Tarantino mais tarantinesco de todos, embora parece ser o menos.

Começando pelo “mais”. Era Uma Vez... Em Hollywood utiliza um fato como premissa: a chacina do Caso Tate-LaBianca. Trata-se de um dos crimes (perdão pelo eufemismo) mais conhecidos do mundo, seja pela tragédia envolvendo o casal mais badalado de Hollywood à época, a atriz em ascensão Sharon Tate e o renomado diretor Roman Polanski (enquanto Polanski estava na Europa, sua esposa, Sharon, grávida de oito meses, foi brutalmente assassinada junto com mais quatro pessoas em sua mansão. No dia seguinte, o casal LaBianca também foi alvo dos assassinos), seja pelo mentor da barbárie, o líder Charles Manson, que ordenou o crime aos seus seguidores. Mas caso você não conheça nada, foi basicamente isso que aconteceu num dos fatos mais tenebrosos de Hollywood – que curiosidades como Dennis Wilson (do Beach Boys), manipulação, The Beatles, um líder e mentor intelectual de um grupo de fanáticos, contracultura, guerra racial e mais... . Tudo isso dentro de Hollywood, entre 1968 e 1969, durante a diluição da contracultura hippie – aliás, o caso Tate-LaBianca é determinante para o fim da contracultura – que se reflete na cultura estadunidense. É quando o estilo estético-narrativo do cinema abandona a romântica Hollywood Clássica e ingressa na fria, forte e pessimista (ou realista?) Nova Hollywood. Ou seja, a premissa é a mais tarantinesca possível e dá a ele tem elementos suficientes para montar o desenrolar carregado de suas características narrativas, como a metalinguagem, a violência e às homenagens e referências à TV e ao cinema. E de alguma forma, tudo isso está em Era Uma Vez..., mas de outra forma.

Era Uma Vez... Em Hollywood não é uma espetacularização do fato ou um mero retrato da época. Ainda que celebre o Hollywood e o cinema – e qual filme dele não faz isso? – seu nono filme parece ser a consciência de que está chegando um final. Tarantino resume, já no título, a intenção da obra. Ela homenageia o cinema com o Era Uma Vez (no Oeste ou Na América, ambos filmes de Sergio Leone, um dos diretores mais influentes de Tarantino), mas também indica que contará uma história, um conto, uma fantasia. E é isso que ele faz.

Há um teor romântico em Era Uma Vez... que se resume basicamente na candura de Sharon Tate (Margot Robbie), que não se impede de dançar quando quer, dar carona e carinho para estranhos ou entrar no cinema para sentir a reação do público à sua personagem Freya em Arma Secreta contra Matt Helm (de Phil Karlson, 1968). Nessa sequência, aliás, o filme atinge um dos seus picos de tarantinismo ao colocar a loira Sharon, com os pés pra cima, vendo um filme. É bonito perceber que Tarantino usou as imagens reais de Arma Secreta... como homenagem à atriz que, por ter tido a carreira precoce e brutalmente interrompida, agora pode ser descoberta por uma nova geração. Sharon, pela forma como Quentin a trabalha ao longo da obra, representa uma inocência que parece perdida, que destoa daquele – e do nosso – mundo. Margot Robbie expressa com naturalidade tamanha inocência e dá vida ao papel que é carregado de ironia dramática, o que é uma consequência direta de filmes baseados em fatos.

Mas o foco principal de Era Uma Vez... Em Hollywood não é Sharon, é Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), o outrora astro e agora ator em decadência, e Cliff Booth (Cliff Booth), seu dublê, faz-tudo e melhor amigo. Ambos os personagens parecem ser uma divisão do próprio diretor. Rick adora seu sucesso e estilo de vida, mas ao chegar ao vislumbrar o fim da carreira, nota que apesar do brilho da fama, ele também ama a arte e quer se dedicar a ela fazendo o melhor que pode. Aliás, a atuação de DiCaprio é, mais uma vez, intensa e envolvente. Entre as furtivas gagueira (sinceras acerca de sua personalidade interna), Rick explode em emoções seja em repentes agressivos por não conseguir lembrar das falas, ou através de uma intensa improvisação ou nas lágrimas melancólicas repentinas após vislumbras sobre si. Enquanto isso, Pitt cria um personagem cuja intensidade é interior, em contraponto com o exterior calmo e satisfeito. Booth vive como pode, ciente de que o caminho e o momento são bons e, caso o futuro não seja, ele vai se virar de alguma maneira. A dinâmica dos atores, além do roteiro (escrito pelo próprio Tarantino), criam uma simbiose fluida entre os personagens e parecem representar o vislumbra de diretor sobre si, sua vida e o futuro que se aproxima.

Ao longo da obra, através dos personagens e do ambiente, Tarantino abusa das referências, homenagens e citações à sétima arte. O ótimo design de produção de Barbara Ling, somado à fotografia de Robert Richardson e à edição de Fred Raskin permitem que o dilúvio de referências seja em perceptível e natural. Ainda assim, há momentos onde há exageros. As sequências, por exemplo, onde Cliff está dirigindo passam por pontos conhecidos da cidade, com o aparente intuito de homenagear o local, e também funciona para demonstrar a distância entre as realidades econômicas e emocionais de Rick e Cliff. Porém, após um tempo, ela não trás mais novidades e se alongam em repetições e minutos que não trazem nada além de referências. Porém, através delas – e de quase todo o filme, na verdade – a trilha sonora inspirada de Quentin dá a dinâmica que por vezes as sequências não conseguem ter.

De todas a músicas, a que eu mais gostei dentro da obra foi a versão de California Dreamin’, na voz de José Feliciano – escolha difícil já que há tantas versões maravilhosas dessa grande canção, mas uma grande escolha já que o tom de Feliciano combina perfeitamente com o período, local e a tônica do momento. Ela cria uma transição perfeita para o arco final. A canção possui um tom mais melancólico do que suas demais versões o que, somada a toda a ironia dramática da obra, cria um arco final curioso. Tarantino, como o grande conhecedor de cinema que é, antecipa a expectativa do público, que sabe que inevitavelmente o clímax acontecerá através dos assassinatos, seja por ser baseado em fatos, seja pela característica de Quentin. E assim é, catártico, intenso, exagerado e violento. Como é de se esperar.

Tudo que falei – e ainda deixei muita coisa de fora – mostra o quão tarantinesco é Era Uma Vez... Em Hollywood. Então como eu estava entediado? Por que ele pareceu, durante a sessão, sua obra menos característica? Eu diria que foi pela forma no qual ele aborda o fato. Não digo pela falta de outros aspectos conhecidos, como grandes diálogos curiosos, dinâmica acelerada ou quanto à fidedignidade com o real, mas o olhar com o qual ele observa o período a partir do ponto onde está. Era Uma Vez... Em Hollywood é uma história sobre o desejo por tempos mais simples, mais inocentes, onde a sorte joga a favor do que é puro. A relação entre os personagens Rick e Cliff e Sharon são diferentes do que se pode imaginar. Aparentemente sem contato, o mundo estranho e nebuloso de Cliff e Rick, movido por motivos nada heróicos, mas sinceramente humanos, influencia a realidade de Sharon, e, mesmo sem perceber, muda o rumo das coisas. Uma defesa da inocência. Tarantino utiliza o fato para expor um desejo de que mesmo diante dúvidas, erros e motivações questionáveis, deseja ter conseguido, de alguma forma, preservar alguma inocência.

Era Uma Vez... Em Hollywood apresenta uma maturidade emocional nova na cinematografia de Quentin Tarantino, muito guiada pela paixão referencial. Ainda há muita paixão, mas agora através de um prisma pessoal e emotivo. Entendo. Agora falta só o décimo filme dele...

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